No dia 21 de março de 2025, o governo federal lançou oficialmente a nova modalidade de crédito consignado privado — aberta a qualquer trabalhador com carteira assinada, sem a necessidade de convênio empresarial. Esse marco representa uma reestruturação completa de um produto praticamente estagnado há décadas e abre uma baita oportunidade para os bancos públicos, que agora se posicionam como protagonistas nessa transformação

- Renovação estrutural do mercado consignado
Até então, o consignado privado era restrito a funcionários de empresas com convênio com bancos, somando cerca de R$ 40 bilhões em carteira e limitada a poucos beneficiários. O novo sistema, habilitado pela plataforma do eSocial e da Carteira de Trabalho Digital, permite que milhões de celetistas — incluindo domésticos, rurais e trabalhadores de microempresas — acessem essa linha com juros até 50% menores que o crédito pessoal
Em poucos dias de funcionamento, já ultrapassou R$ 8,2 bilhões em contratos, número que levou seis anos para ser alcançado na versão anterior
- O papel estratégico dos bancos públicos
O presidente Lula indicou desde o início que o Banco do Brasil e a Caixa Econômica Federal terão atuação forte e estratégica nessa nova fase, sem receber preferência oficial, mas sim com foco em competitividade via preços mais baixos e capilaridade
A aposta dos públicos passa por:
Experiência consolidada com o consignado do INSS e servidores;
Infraestrutura nacional abrangente, fundamental para atingir trabalhadores dispersos geograficamente;
Capacidade de atuar com taxas menores e ao mesmo tempo atender às políticas públicas de inclusão financeira
No caso do Banco do Brasil, por exemplo, a meta é conquistar 10% do market share no novo produto — hoje tem apenas cerca de 3,8% no consignado privado
- Por que os públicos lideram nesse momento?
a) Taxas mais baixas refletindo menor custo e risco
A nova linha permite aos bancos usar como garantia até 10% do saldo do FGTS e até 100% da multa de rescisão, diminuindo o risco e os spreads operacionais. Isso permite oferecer juros médios por volta de 2,8% ao mês ou menos, comparado a 6% ou mais no crédito pessoal tradicional
b) Saúde financeira dos bancos via menor inadimplência
Analistas da Moody’s apontam que a inadimplência esperada no consignado privado gira em torno de 6% a 8%, bem abaixo dos 20% a 30% no crédito pessoal sem garantia. Na operação via convênio antiga a inadimplência era ~8% também, mas tende a cair com a garantia do FGTS e a portabilidade via eSocial e saldo automático em folha
Isso melhora o perfil de crédito dos bancos públicos e privados, mas os públicos têm certa vantagem reputacional e robustez institucional para gerenciar o crescimento da carteira com prudência.
c) Incentivo político e escala social
O governo tem defendido que os bancos públicos sejam indutores do desenvolvimento econômico, oferecendo linhas de crédito que promovam inclusão e impulsionem setores produtivos, sem prejuízo aos privados, mas com propósito social explícito
- Competição com bancos privados e fintechs
Atualmente, os líderes do consignado privado ainda são instituições como Itaú e Santander, com cerca de 30,2% cada do mercado, seguidos por Bradesco (12%)
Já os bancos digitais e fintechs — como Nubank, Banco Inter e C6 Bank — começam a se destacar pela agilidade e perfil digital, sobretudo em ofertas competitivas via marketplace da Carteira Digital do Trabalho
No entanto, surgiram controvérsias quanto à portabilidade de dívidas. Notícias recentes citaram uma suposta articulação entre Nubank e Itaú para restringir concorrência na troca de dívidas antigas por novas linhas mais baratas. Ambas as instituições negaram envolvimento em qualquer tentativa de restringir portabilidade, e a Febraban defende mecanismos abertos de concorrência no sistema
Ainda assim, bancos públicos têm uma vantagem natural no acesso à base de usuários via programas sociais, capilaridade em municípios pequenos e maior credibilidade com usuários de baixa renda.
- Barreiras e desafios
Operacionalização e integração tecnológica
A nova plataforma que conecta o eSocial, Dataprev, Carteira Digital de Trabalho e os sistemas bancários ainda demanda ajustes operacionais e comunicação eficiente com trabalhadores para disseminar o uso correto desses canais
Educação financeira e prevenção do superendividamento
Especialistas alertam para o risco de superendividamento mesmo em produto com taxa menor. Para evitar isso, é essencial que haja orientação clara ao trabalhador sobre limites de comprometimento (máximo de 35% da renda) e uso consciente dos recursos do FGTS como garantia
Sustentabilidade da carteira e regras futuras
Apesar de não haver um teto de juros definido inicialmente, existe a possibilidade de o governo estabelecer regras caso haja abusos no mercado. Os bancos públicos precisam se posicionar nesse cenário de fiscalização futura, mas sem surtir efeito negativo na viabilidade do produto
- A longo prazo: liderança sustentável?
A expectativa é que o consignado privado alcance patamares de R$ 120 a R$ 200 bilhões em alguns anos — podendo rivalizar com o volume do consignado do INSS, que hoje ultrapassa os R$ 200 bilhões
Bancos públicos como Caixa e BB têm condições de liderar esse segmento se mantiverem taxas competitivas, agilidade na operação e esforços de inclusão nas regiões menos atendidas — especialmente na zona rural e áreas de menor renda. Com experiência consolidada e maior proximidade com políticas sociais, são estrutura-chave para garantir capilaridade e confiança.
Além disso, a estratégia política de usar os públicos como instrumento de inclusão financeira estruturada reforça o papel deles como protagonistas em um produto com potencial transformador para 47 milhões de trabalhadores formais
Conclusão
O novo consignado privado lançado em março de 2025 representa uma revolução no crédito para o trabalhador formal, com menor burocracia, mais alcance e juros mais baixos.
Bancos públicos, por sua escala, experiência e alinhamento político e social, estão bem posicionados para liderar esse segmento, sem receber favorecimento formal, mas operando em melhores condições estratégicas.
Com boas práticas de educação financeira e transparência, essa linha de crédito pode oferecer inclusão produtiva, redução do custo do crédito, menor inadimplência e impacto positivo tanto social quanto estimulação da economia.
A liderança dos públicos não impede a atuação vigorosa dos bancos privados e fintechs, mas cria um ambiente de concorrência mais saudável, onde os consumidores ganham pelas melhores taxas e experiência digital.
