Cinco bancos concentram 73% dos valores liberados no consignado CLT: liderança, riscos e oportunidades

O novo modelo de crédito consignado destinado a trabalhadores com carteira assinada (CLT) — conhecido como “Crédito do Trabalhador” — já apresenta forte concentração no início de sua operação: apenas cinco instituições financeiras concentraram 73,3% do total liberado até meados de maio de 2025
Nesse período, foram liberados mais de R$ 8,2 bilhões, com R$ 3,1 bi pelo Banco do Brasil, R$ 1,6 bi pela Parati Financeira, R$ 1,2 bi pela Facta Financeira, R$ 1,1 bi pelo PicPay Bank, e R$ 1,0 bi pela Caixa Econômica Federal

Origem e contexto da nova modalidade
A modalidade foi instituída pela Medida Provisória nº 1292, em vigor desde março de 2025, com o objetivo de estender o crédito consignado aos trabalhadores celetistas, antes restrito a servidores públicos e aposentados do INSS
A inovação facilitou o acesso ao crédito com desconto em folha, sem depender de convênio prévio entre empregador e banco, graças ao uso do e‑Social e da Carteira de Trabalho Digital como plataforma única de solicitação e análise de risco

Embora existam tetos de juros fixados para consignados do INSS e de servidores, no modelo CLT não há limite legal de taxa — embora espera-se que as condições sejam mais competitivas em razão da garantia proporcionada pelo FGTS e multa rescisória

A liderança dos cinco bancos — quem são?
Segundo dados divulgados pelo Ministério do Trabalho e Emprego (MTE):

Banco do Brasil – R$ 3,1 bilhões liberados;

Parati Financeira – R$ 1,6 bilhão;

Facta Financeira – R$ 1,2 bilhão;

PicPay Bank – R$ 1,1 bilhão;

Caixa Econômica Federal – R$ 1,0 bilhão

Estes cinco correspondem a 73,3% do total liberado, enquanto entre 70 instituições habilitadas, apenas 39 operaram efetivamente esse novo produto até então

Contratos e perfil dos tomadores
Foram assinados cerca de 2,1 milhões de contratos, dos quais 69,8% foram através dos mesmos cinco bancos líderes. A Facta foi responsável pela maior quantidade de contratos (mais de 469 mil), seguida por Parati (≈ 327 mil), PicPay Bank (≈ 253 mil), Banco do Brasil (≈ 239 mil) e Agibank (≈ 177 mil)

O valor médio do empréstimo foi de R$ 5.383,22, e a prestação média girou em torno de R$ 317,20
Em outra fonte, no início da operação, o valor médio foi de R$ 6.200, com prazo médio de 18 meses e parcela média de R$ 350

Por que essa concentração?

  1. Agilidade das fintechs e bancos médios
    Parati, Facta e PicPay, embora menores, se destacaram pela agilidade em aderir e operar o novo crédito CLT. Estratégias digitais e foco em nichos permitiram que conquistassem participação aceleradamente — enquanto os grandes bancos precisaram passar por fase de adaptação e implementação nos sistemas próprios até abril de 2025
  2. Desinteresse relativo dos grandes bancos
    O Itaú Unibanco, maior banco privado do país, está apenas na 9ª posição, com R$ 314,8 milhões liberados, seguido por Bradesco, Santander, Nubank e BTG, que juntos somam cerca de R$ 344 milhões — menos de 4% do total. Os grandes bancos justificam a postura afirmando que, com a Selic em 14,75% ao ano, preferem investir em títulos públicos, mais rentáveis e menos arriscados que o consignado CLT, cuja margem é reduzida

Ainda que planejem expandir a atuação no futuro próximo, afirmam que trabalham com ajuste gradual das plataformas internas, além de avaliar riscos e regulação antes de crescer no segmento

Crescendo aos poucos? Ainda sim, risco iminente
A pesquisa da Serasa Experian mostrou que quase 25% dos trabalhadores que contrataram crédito CLT comprometeram mais de 35% da renda — acima do limite máximo permitido pelas regras do programa
Além disso, 5% dos tomadores tinham mais de um consignado ativo, o que é proibido pela MP, mesmo que ainda haja margem disponível

Essas falhas são atribuídas às instabilidades dos sistemas de análise da margem consignável — que inicialmente consideravam o salário bruto, e não o líquido, deixando margem para superendividamento

Portabilidade: o leilão de taxas
Desde 16 de maio houve liberação da portabilidade do consignado CLT, permitindo que o trabalhador transfira contratos antigos (como CDC ou convênios anteriores) para o novo modelo, em busca de taxas mais baixas

Esse mecanismo cria uma espécie de leilão competitivo entre instituições, já que os bancos tentam oferecer taxas mais atrativas para conquistar o cliente. O trabalhador pode mover a dívida para outro banco, que quita o valor antigo e assume novo empréstimo, por um prazo e valor revisado com base na margem restante

Projeções e expectativas
A Febraban estima que o volume contratado poderá ultrapassar R$ 120 bilhões nos próximos anos, e que cerca de 19 milhões de celetistas optem pela consignação salarial até 2029
Até abril, o programa já estava mais ativo e com expectativa de escala a partir da abertura dos sistemas próprios dos bancos. Mas até maio/junho, ainda predominavam os bancos que já estavam preparados digitalmente para operar

Considerações para o trabalhador
Priorize plataformas amplas de comparação, como a Carteira de Trabalho Digital (e‑Social), em vez de solicitar diretamente por um único banco, para ampliar a concorrência e potencialmente reduzir taxas

Fique atento ao limite de comprometimento de renda: jamais ultrapasse 35% do salário líquido. Caso já tenha outro consignado ativo, evite contratar novo empréstimo dentro do programa CLT, pois isso contraria as regras e pode gerar problemas financeiros e legais

Ao portabilidade, cheque as condições: o novo banco assume a dívida anterior, porém pode oferecer prazos e valores diferentes — leia atentamente os termos antes de aceitar

Resumo Executivo
Item Detalhes principais
Volume total liberado R$ 8,2 bi em ~2 meses
5 bancos líderes Banco do Brasil, Parati, Facta, PicPay Bank, Caixa
Participação (5 bancos) 73,3% do total
Total de contratos ~2,1 milhões
Média de empréstimo R$ 5.383,22 (também citado R$ 6.200)
Juros esperados 1,6% a 4,99% ao mês (≈ 40%–80% ao ano), sem teto legal
Riscos observados Comprometimento excessivo da renda e contratos múltiplos
Portabilidade liberada Desde 16 de maio, facilita competição entre bancos
Expectativa de mercado Até R$ 120 bi e ~19 milhões de celetistas até 2029

Conclusão
Embora ainda seja uma fase inicial de operação, o consignado CLT já registra fortes sinais de concentração em poucas instituições, ainda que com potencial de crescimento rápido. O processo digital via e‑Social democratizou o acesso, mas trouxe desafios como comprometimento de renda e múltiplos contratos ativos.

Para os trabalhadores, a boa prática é pesquisar, simular propostas em diversas instituições via plataforma centralizada e analisar taxas e condições antes de contratar. À medida que mais bancos – especialmente os grandes – entrarem em campo, o cenário deve se tornar mais competitivo. No entanto, fica o alerta: atenção à margem da renda e ao risco de endividamento acelerado.