A agência de classificação de risco Moody’s divulgou recentemente um relatório com projeções e análises estratégicas para o setor financeiro brasileiro. O destaque está no crédito consignado privado — um mercado tradicionalmente dominado por bancos públicos como Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal —, que passa por uma reconfiguração com impacto significativo sobre as fintechs como Nubank, Banco Inter e C6 Bank

- A nova regulamentação e o protagonismo do BB e da Caixa
Desde 21 de março de 2025, novas regras regulamentares alteraram o modelo de concessão de consignado privado: o crédito pode agora ser ofertado diretamente ao trabalhador formal, via plataforma integrada da Carteira de Trabalho Digital e dados do eSocial, eliminando a necessidade de convênios entre bancos e empregadores
Esse modelo favorece bancos com infraestrutura consolidada e experiência em operações com servidores e mercado formal, como BB e Caixa, que devem “sair na frente” na oferta desse produto.
Moody’s destaca que ambos os bancos estão alinhados à política econômica do governo, que busca fomentar crédito com taxas competitivas para impulsionar o consumo e a atividade econômica
Por isso, espera-se crescimento acelerado nessas instituições nos próximos trimestres.
- Fintechs estreiam de forma modesta, mas com potencial
Para fintechs como Nubank, Banco Inter e C6, o momento representa uma oportunidade inédita. Historicamente quase ausentes do crédito consignado privado (participação “mínima ou inexistente”, segundo Moody’s), essas instituições agora podem explorar esse mercado com maior liberdade, alavancadas pelo uso de dados do eSocial
Moody’s aponta que as fintechs, embora ainda com participação modesta, têm potencial de expansão significativa. A nova regulamentação viabiliza o acesso de forma mais democrática, especialmente pela atuação digital e direta ao consumidor formal, sem intermediários
- Contexto: evolução dos ratings e ambiente financeiro
Mais recentemente, Moody’s revisou os ratings de diversas instituições financeiras brasileiras, reafirmando ou elevando avaliações com base na nota soberana do Brasil (Ba1, com perspectiva estável)
Para Banco do Brasil e Caixa, os ratings de depósitos de longo prazo em moeda local e estrangeira foram mantidos em Ba1, com perspectiva estável ou positiva, refletindo a confiança na solidez dessas instituições
Nubank, por sua vez, teve o rating de BCA elevado de Ba2 para Ba1; a perspectiva passou de positiva para estável em algumas fontes, indicando consolidação mas com cautela pela relativa imaturidade no crédito
Estabelecer BB e Caixa como líderes controlando melhor os riscos regulatórios e de crédito, enquanto fintechs crescem sob supervisão mais rigorosa, é consistente com a história recente da regulação brasileira: maior igualdade entre bancos e fintechs está no horizonte conforme crescem os riscos associados
- Panorama das fintechs: escala e estratégia
O cenário competitivo digital brasileiro já é dominado por fintechs maduras e agressivas:
Nubank ultrapassou 100 milhões de clientes no Brasil em novembro de 2024, com 20% de participação de mercado segundo dados da GlobalData — tornando-se o maior banco do país, à frente do Banco do Brasil
Muitos consumidores migraram atraídos por experiência digital, sendo o Nubank citado por 47% dos que trocaram de banco por esse motivo
Banco Inter e C6 Bank, ainda que menores em escala — Inter com cerca de 35 milhões de clientes e C6 com cerca de 30–35 milhões — investem em modelos híbridos e superapps integrados de finanças, lifestyle e crédito, buscando escalar em nichos e elevar a participação de mercado
Segundo relatórios recentes, Nubank lidera com 109,7 milhões de clientes no Q3 de 2024, enquanto Itaú estava com cerca de 99,3 milhões. O portfólio de crédito da fintech era de US$ 20,9 bi, bem abaixo dos US$ 255 bi do Itaú, evidenciando espaço de crescimento no crédito
Apesar disso, Nubank entregou US$ 2,9 bi em receita e US$ 553 mi em lucro líquido (eficiência operacional de 31,4%), comparado com Itaú (receita de US$ 8,54 bi e lucro de US$ 2,9 bi). Já o Inter teve receita de US$ 500 mi e lucro de US$ 52 mi, com eficiência de 50,7%

- Comparativo de vantagens estratégicas
Instituição Pontos fortes no consignado privado Desafios/Potencial
Banco do Brasil Infraestrutura tradicional, confiança de trabalhadores públicos e formais Regulação e competição com fintechs
Caixa Econômica Experiência consolidada e alinhamento com política de governo Burocracia histórica e rigidez operacional
Nubank Base de clientes massiva, experiência digital superior e crédito incremental Portfólio de crédito ainda menor, regulação crescente
Banco Inter Modelo híbrido, superapp e integração de lifestyle e finanças Geração de lucro mais modesta vs gigantes tradicionais
C6 Bank Foco premium, segurança robusta (MIT), expansão internacional e lucro crescente em crédito com garantia Ainda menor escala, reconhecimento de marca menor - Impactos e tendências no setor
Competição digital aumentada
A expansão das fintechs estimula os grandes bancos a inovar seus canais digitais e aumentar a eficiência dos serviços, sob risco de perder clientes para plataformas mais ágeis
Regulação e exigências de capital
Conforme fintechs assumem mais riscos de crédito e mercado, reguladores tendem a exigir capital próprio e controles sofisticados, diminuindo vantagens regulatórias anteriores
Inclusão e inovação
Nubank e similares apontam que uma fatia significativa dos clientes conquistados migrou devido ao foco em experiência, em especial entre gerações jovens e populações historicamente sub-bancarizadas
Diversificação de produtos
Os superapps de Inter e C6 estendem-se além do bancário, oferecendo serviços integrados de e‑commerce, seguros, investimentos e lifestyle, potencializando retenção e receita por cliente
- O que esperar daqui pra frente
Com a regulamentação vigente desde março de 2025, BB e Caixa têm vantagem inicial no consignado privado. Porém, fintechs com base digital, agilidade e apelo tecnológico estão bem posicionadas para escalar nesse segmento nos próximos anos. Moody’s enxerga um cenário de liderança gradual de bancos públicos, mas com espaço real para crescimento estratégico das fintechs, desde que continuem a expandir seu portfólio de crédito e estejam preparadas para regulações mais rigorosas.
Se levado adiante, esse movimento poderá equilibrar o mercado: bancos clicados e consolidados com capacidade de oferta ampla, fintechs com marca forte, inovação, baixo custo e foco digital.
Conclusão
O relatório da Moody’s abre espaço para um cenário híbrido em evolução — com Banco do Brasil e Caixa liderando por sua vantagem institucional no crédito consignado privado, e Nubank, Inter e C6 emergindo como protagonistas do futuro bancário digital, à medida que conquistam terreno regulatório e ganham participação com experiência superior. Um equilíbrio entre tradição e inovação está se formando no centro da transformação financeira brasileira.
