Como o Novo Consignado Reduz o Risco para os Bancos e Impulsiona o Setor Financeiro

  1. O que é o novo consignado privado?
    O chamado “novo consignado privado” (ou “Crédito do Trabalhador”) foi instituído pela Medida Provisória 1.292/2025, convertida na Lei nº 15.179/2025, assinada em março de 2025 e sancionada em 25 de julho 
    Essa medida ampliou o acesso ao empréstimo consignado para trabalhadores com carteira assinada (inclusive domésticas, rurais, MEIs, motoristas e entregadores de aplicativos), antes restrito a aposentados, pensionistas e servidores públicos 
  2. Por que reduz o risco para os bancos?
    Desconto direto na folha e garantia do FGTS
    As prestações são descontadas diretamente do salário, o que elimina o risco de inadimplência por parte do tomador 

Em muitos casos, pode-se utilizar até 10% do saldo do FGTS ou 100% da multa rescisória como garantia

Transferência automática entre empregos
Caso o trabalhador mude de emprego, o novo empregador mantém o mecanismo de desconto automático, preservando o fluxo de pagamento e reduzindo o calote 

Migração de contratos antigos e portabilidade
A partir de 25 de abril de 2025, os contratos antigos podem ser migrados para o novo modelo, e a partir de 6 de junho, passa a ser permitida a portabilidade entre bancos 
Isso permite migrar dívidas caras para o consignado mais seguro, com taxas menores e maior previsibilidade 

Dados integrados e avaliação de risco mais precisa
O compartilhamento de dados via e‑Social e a integração com a Carteira de Trabalho Digital permitem uma análise de crédito mais eficaz pelas instituições financeiras, reduzindo erros e custos 

  1. A inadimplência no consignado privado x crédito pessoal
    A inadimplência estimada no crédito pessoal varia entre 20% a 30%. Já no novo consignado privado, a taxa vai de apenas 6% a 8% 
    Essa diferença reduz drasticamente as perdas esperadas e permite aos bancos provisionar menos recursos, o que melhora a rentabilidade e a saúde dos seus balanços 
  2. Volume de crédito e mercado em expansão
    Atualmente, o estoque de consignado privado gira em torno de R$ 40 bilhões, com juros médios de 2,9% ao mês. Com as novas regras, há expectativa de triplicar esse volume, chegando a R$ 120 bilhões 
    A Febraban estima que cerca de R$ 85 bilhões do crédito pessoal possa migrar para essa modalidade, reduzindo risco e estimulando o consumo 
  3. Benefícios diretos aos bancos
    Menores perdas esperadas
    Com inadimplência reduzida para cerca de 6‑8%, os bancos podem provisionar menos recursos contra calotes, liberando capacidade para novos negócios 

Crescimento do portfólio
A maior competitividade e acesso digital deve atrair novos clientes, ampliando o volume operacional e diversificando a base de crédito 

Eficiência e automação
A contratação digital via CTPS Digital e plataforma pública reduz burocracia, melhora experiência e diminui custos administrativos 

  1. Em meio a um cenário de juros elevados
    Num contexto de inflação elevada e Selic chegando a 15% ao ano, os bancos tradicionais têm reduzido a oferta de crédito. O consignado privado se destaca como uma exceção: oferece taxas mais baixas e segurança jurídica, atraindo instituições a manterem operações 
    O Banco Central e especialistas consideram que esse produto pode sustentar a concessão de crédito mesmo em condições adversas da economia 
  2. Oportunidades estratégicas para bancos e fintechs
    Instituições menores e fintechs agora podem competir com grandes bancos operando via plataformas digitais públicas, acessando trabalhadores formais sem convênios pré-existentes 
    Bancos tradicionais como Itaú, Santander e Banco do Brasil já sinalizaram estratégias ambiciosas: o BB, por exemplo, busca alcançar 10% de participação de mercado mesmo tendo hoje apenas 3,8% 
  3. Desafios e precauções
    Apesar do potencial, há desafios a superar:

Integração das empresas e dos dados da e‑Social às plataformas;

Campanhas de educação financeira para evitar uso inadequado do crédito;

Defesa da privacidade e boas práticas comerciais nas ofertas

Além disso, a MP tem validade inicial de 60 dias e precisa ser aprovada no Congresso Federal para continuidade jurídica — embora já tenha sido sancionada como lei válida desde julho de 2025 

Conclusão
O novo consignado privado, instituído pela MP/lei de 2025, representa uma transformação significativa no mercado de crédito para trabalhadores formais no Brasil. Ao garantir desconto em folha, uso do FGTS como garantia e sistemas digitais com dados integrados, a modalidade reduz consideravelmente os riscos para os bancos.

Com inadimplência projetada entre 6% a 8%, em contraste com os 20%‑30% do crédito pessoal, os bancos conseguem maior eficiência, menos provisões e maior volume operacional. A expectativa de crescimento para R$ 120 bilhões em estoque, frente aos atuais R$ 40 bilhões, reforça o potencial de impacto positivo no setor financeiro e na economia 

Para os bancos, é uma oportunidade de melhorar o balanço, oferecer crédito com segurança e atender a milhões de trabalhadores formais de modo competitivo e inclusivo. Para os trabalhadores, trata-se de acesso a crédito com taxas menores, transparência e maior controle — especialmente em tempos de juros altos.